Vou guardar o seu sorriso dentro do meu pote de coisas mágicas. O sorriso que você dá, timidamente, lindamente, perfeitamente, tampando o rosto, levando a mão à boca, como se mastigando algo secreto; a felicidade, talvez. Degustando cada nota disso que a gente chama, ainda que de maneira ingênua, de especial. Por isso o guardarei no meu lugar mais genuíno, mais idôneo, dentro do meu pote de coisas mágicas.
Você pode enfim me perguntar o que mais eu guardo, por que guardo ou pra
quê guardo essas sentimentalidades todas nesse pote que fica sobre minha
mesinha de cabeceira. O fato é que eu também não sei e talvez venha da
particularidade de não saber, esse sabor terroir. Veja (ou sinta) o caso
do Romanée-Conti: duvido muito que haja técnica mais avançada que o clima, o
amor e um cantinho tranquilo pra fazer deste vinho raro e desejado um
espetáculo único de harmonia. Assim eu faço com seu sorriso, dentro do meu pote
de coisas mágicas harmonizando com chocolates, flores e Here Comes the Sun.
Falando nisso, a gente tem que conversar mais sobre discos, chatices e
você tem que vir aqui buscar o livro do Bukowski que te emprestei e que você
esqueceu no carro. Ou eu vou aí, você é quem sabe. A gente se dá bem. A gente
se dá bem e as pessoas ficam olhando, confusas, nossas ideias confusas querendo
tirar uma lasquinha das coisas malucas que arrancam o seu sorriso bobo. Sim,
este mesmo sorriso que vou guardar pra quando você estiver longe.
Longe, lá longe, pra onde você vai distribuir desmedidamente meu tesouro
do pote, não demore. Volte sempre que puder e quiser. Aqui sempre vai ter um
barzinho te esperando, amigos te chamando, infindáveis copos cheios e terá eu.
Eu que, mesmo distante, estarei te aguardando e guardando sobre a mesinha de
cabeceira. No lugar das coisas mágicas.