sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Roberta K.




Vou guardar o seu sorriso dentro do meu pote de coisas mágicas. O sorriso que você dá, timidamente, lindamente, perfeitamente, tampando o rosto, levando a mão à boca, como se mastigando algo secreto; a felicidade, talvez. Degustando cada nota disso que a gente chama, ainda que de maneira ingênua, de especial. Por isso o guardarei no meu lugar mais genuíno, mais idôneo, dentro do meu pote de coisas mágicas.

Você pode enfim me perguntar o que mais eu guardo, por que guardo ou pra quê guardo essas sentimentalidades todas nesse pote que fica sobre minha mesinha de cabeceira. O fato é que eu também não sei e talvez venha da particularidade de não saber, esse sabor terroir. Veja (ou sinta) o caso do Romanée-Conti: duvido muito que haja técnica mais avançada que o clima, o amor e um cantinho tranquilo pra fazer deste vinho raro e desejado um espetáculo único de harmonia. Assim eu faço com seu sorriso, dentro do meu pote de coisas mágicas harmonizando com chocolates, flores e Here Comes the Sun.

Falando nisso, a gente tem que conversar mais sobre discos, chatices e você tem que vir aqui buscar o livro do Bukowski que te emprestei e que você esqueceu no carro. Ou eu vou aí, você é quem sabe. A gente se dá bem. A gente se dá bem e as pessoas ficam olhando, confusas, nossas ideias confusas querendo tirar uma lasquinha das coisas malucas que arrancam o seu sorriso bobo. Sim, este mesmo sorriso que vou guardar pra quando você estiver longe.

Longe, lá longe, pra onde você vai distribuir desmedidamente meu tesouro do pote, não demore. Volte sempre que puder e quiser. Aqui sempre vai ter um barzinho te esperando, amigos te chamando, infindáveis copos cheios e terá eu. Eu que, mesmo distante, estarei te aguardando e guardando sobre a mesinha de cabeceira. No lugar das coisas mágicas.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Love and pop corn.



Certas do silêncio oblíquo, nossas mãos finalmente se encontraram. Era pipoca, drops e coca-cola pra todo lado. Podia ser um beijo, podia ser um abraço, podia ser o que fosse, mas não. Naquele momento nossos olhos se fitaram de uma maneira doida, suja, quase constrangedora que a gente se perdeu por completo. A mocinha enfim se rendeu ao gozo do cowboy, sentindo o afago ocular de um homem que ela mesmo considerava cego pro amor. O cowboy, de uma canalhice inocente, se deixava levar naquele pronome do caso reto, aquele sentimento presunçoso de sala de cinema e era todo açoite na mocinha.

Ela leu e releu de Homero a Roth, sabe de cor e sorteado todas as músicas do Chico, foi nos festivais mais badalados, conheceu os caras mais badalados, discorre sobre o Ingmar Bergman como tivesse sido sua amiga íntima e se torna uma pessoa insuportável quando explica loucamente Fanny e Alexander trinta e três mil vezes. Ela é linda. Gostosa. E sabe. Alguém que não tem noção do quanto é um tesão jamais usaria saias pelo joelho, naquele mostra-não mostra que faz um homem de verdade vender casa, carro e tudo só pelo prazer de lhe dar um anel de noivado. A mocinha deixa ver pouco pra eu ter vontade de ver tudo.

Eu, o cowboy sem cavalo, me enfio em qualquer beco, tomo cerveja em copo de extrato de tomate e só assistia filme da tela quente. Não entendo as coisas que ela fala ou pensa mas ouço calado, embasbacado e orgulhoso. Gosto de exibi-la aos meus amigos normais, de buteco e trabalho normais e ela não se entedia em me acompanhar nos meus planos normais desde que eu aprenda a usar os talheres de fora pra dentro quando estiver jantando com sua tia avó polaca. Sou agora um menino a conhecer o mundo.

Quando a gente sentou na mesma mesa por intermédio de alguns amigos em comum, dois desconhecidos, de mundos tão distantes nem podia imaginar que uma fila de banheiro resultasse em um convite pro cinema, um convite pra ver a vida de uma maneira diferente. Eu tenho a presunção de dizer que vai durar. Ela também. Acho até que é por isso que nossos olhos volta e meia continuam se engolindo durante uma sessão no cinema.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Feliz aniversário




Tudo de bom pra você. Tudo de bom pra nós. É fato que qualquer sorriso meu demora, se renova e transborda cada vez que vejo uma foto sua. É fato e é saudade. Saudade sim, sem remorsos, sem afetações extemporais, sem lágrimas ou rancor. Só saudade. Estranho, né? A gente nem se fala há tanto tempo que nem sei quais são seus novos planos, seus mais recentes amigos eternos ou o qual a cor da calcinha que usou na virada pra dois mil e treze. É saudade, não me leve a mal.

Me lembro ainda das nossas conversas e isso é a prova concreta de que não ficou pra trás, que o sentimento bom persiste e, é claro, que eu te quero sempre do meu lado, agora como amiga,  companheira, brother ou, por quê não, amada. A questão é que você precisa vir mais vezes pra gente tomar uma cerveja, trocar ideias e nos fazer bem.

Hoje a mulher incrível que eu conheci faz aniversário. Um brinde a ela e a todos os que tiveram o privilégio e a felicidade de conhecê-la. Tá certo, ela é durona, intransigente e boca suja, mas poucos têm a sensibilidade pra se mostrar por inteiro. Sem meio termo. Sem entrelinhas. Essa é Ana Paula Mello. Maluca por essência. Incansavelmente inflexível. Toda amor por opção. Um brinde a mim também. Um brinde à Katiê, Laine e ao Tarantelle. Um brinde ao tempo que cura todas as feridas e que te colocou no meu caminho. Portanto, um brinde a nós.

Sem afetações, lágrimas ou rancor. Tudo de bom pra você. É só saudade, não me leve a mal.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Das alianças e letreiros dourados.



É caro - disse ela. Eu já sabia. E ficávamos nos perguntando o que havia de verdadeiro ali, aquilo que nos prendia toda vez que passávamos em frente daquela placa: Amadelle Noivas. A composição era demais. Letras douradas num fundo preto. Parecia que tudo ficava calmo ao olhar aqueles vestidos brancos enormes, cheios de coisinhas que brilhavam com qualquer incidência de luz, extrovertidos. Vestidos extrovertidos. Alheios a tudo. Estava na cara que tudo que havia naquela loja fora insistentemente treinado a fazer cara de feliz. E isso era tudo que a gente precisava. Ser feliz, brilhante e, porque não, alheio.

Morávamos à três quarteirões daquele letreiro chamativo e precisávamos passar por ele pra tudo. Ir à padaria, chegar na parada de ônibus ou até mesmo por perambulância. Perambulânica. Palavra boba, acho até que nem existe no dicionário. O fato é que só morávamos juntos. Um casamento cheio de amor, compreensão e cuidado, mas sem alianças. Digo, tínhamos aliança sim, de afeto e confidência. Faltava-nos aquelas de ouro, simbólicas, trocadas no altar, aquelas que dona Marizete, minha sogra, sempre quis que a filha dela usasse no anelar esquerdo só pra provar pros vizinhos sua bela educação. Eu também queria. Izabel, idem. Mas é caro - disse ela. Eu já sabia.

Ocorreu-me uma vez de roubá-la de mentirinha, levá-la pra uma igreja e lá estaria tudo arrumado. O padre esperando ansioso para dar a bênção, as senhoras cochilando nas primeiras fileiras, dona Marizete não se contendo em lágrimas de orgulho. Tudo parecia perfeito. E nem precisaria de tanto dinheiro assim. Talvez tivesse que tirar um pouco daqui, outro pouco dali e até quem sabe eu ficasse por um tempo longe do boteco do sêo Alaor, sem a cerveja e a sinuquinha com os amigos barrigudos. Mas tudo bem. E assim eu fantasiava Bebel de amor convencionado, véu e grinalda, no seu vestido extrovertido subindo no altar e dizendo sim pra mim. O problema é que é foda. Temos muita coisa pra pagar esse ano.

É caro - disse ela. Eu já sabia, mas dei um jeito. Fiz um empréstimo com o banco, com o agiota e com dona Marizete. Dei à Izabel dinheiro suficiente pra ela comprar toda a Amadelle Noivas, certo de que ela escolheria um vestido mais simplesinho e me devolvesse o troco. E assim ela foi, sorridente ao encontro das letras douradas num fundo preto, como vespas que rodopiam freneticamente ao redor da lâmpada, e levou o que tinha direito. Cortou o cabelo, fez as unhas, foi à um spa e tomou champagne. Eu coloquei aquele terno mesmo que usava pra trabalhar, pedi a um engraxate que lustrasse o já descanhotado mocassim e estava pronto. Pronto pra receber minha mulher vestida na sua convenção cristã tão sonhada.

Casamos e logo após fomos pro motel mesmo tendo nosso próprio apartamento. Ali eu sabia que não ia durar. Parece clichê mas dois meses depois nos separamos. Talvez ainda gostássemos um do outro. Pra ela não sobrou nada. Pra mim, muito menos. É caro - disse ela. Eu já sabia.


sábado, 3 de novembro de 2012

Maneiras eficazes para acordar com ressaca.



Em primeiro lugar se abasteça com vodka. Muita vodka. Após feito esse ritual que, em algumas propagandas pode ser a abertura dos portais do paraíso etílico, onde mulheres balinesas desfilam com seus vestidos Prada olhando diretamente em seus olhos enquanto dançam músicas tão boas que dá até a impressão de que o cara é realmente você e, pra nós mortais, significa terremotos, hematomas e amnésia, siga até o primeiro bar e conheça algumas pessoas que você nunca viu na vida. Converse com elas, ria, conte todos os seus segredos e dance. Afinal de contas, a nossa meta aqui é perder completamente a dignidade.

Se despeça destas pessoas lindas e elegantes e ligue para aquela sua "amiga" que você não vê desde que, com sua finesse, terminou o noivado por sua causa. Converse, converse, não deixe a história terminar antes que ela se sinta tão atormentada a ponto de te dar o endereço da festa. Ingressos? Ingressos não importam quando você é tão gente boa que se tornou amigo de infância de todos os seguranças e hotstess da cidade. Ah, não se esqueça de tomar mais um delicioso shot de Moskovita. Coragem tem que ser nosso sobrenome. O primeiro, por mais que seja óbvio que é Falta De, é irrisório para quem conhece os prazeres de um bom porre.

Estacione, desça e tente não cair. Cair é feio. Cachecóis do Pateta são feios, mas se sua mãe disser que está frio e que se você não usá-lo vai pegar pneumonia, não pense duas vezes e acate. Pense pelo lado positivo: você vai ter um diferencial. Entre na moral, lembre-se que você está em um comercial com as mulheres mais gatas da terra e sorria. Enfim, você é o cara.

Na hora da caçada, não se acanhe. Se não for uma vai ser a outra. Bom, pelo menos alguma moça espiritualizada deve estar ali pra entender o seu sofrimento interior. Puxe papo com o pai da aniversariante e, se ele disser que é pescador, replique que você já pegou carona num navio pirata junto com outros mil caras da Somália, armados até os dentes só pra pescar os temíveis leões marinhos do focinho rosa do ártico. Geografia e biologia aqui não importam, cara, hoje a noite é sua. Aproveite o ensejo pra demonstrar que é um ótimo pé de valsa, puxe a senhora que estará à sua esquerda e dirija-se ao centro das atenções.
Antes que um tio gordo te arraste pra fora não se esqueça de perguntar se ele sabe com quem está mexendo. Argumente usando carros importados e artes marciais.

Por fim, se toda essa técnica ninja de ser O Cara não der certo, ligue pra sua ex. Ela vai adorar. Mesmo. Baldes d'água jogados da janela são artifícios semiológicos típicos de uma mulher que adorou a ligação às três e meia da madrugada de um bêbado. Sério, elas gostam muito disso.
Vá pra casa e antes de dormir acorde o prédio inteiro ligando o rádio no último volume. Descanse. Amanhã o dia vai ser longo.

sábado, 27 de outubro de 2012

Fique, mas com cuidado.



Ei, você que tá chegando agora, vá com calma, não tenha pressa de saber o que se passa por aqui, mas olha só: honre este lugar e comece a ter orgulho de estar aonde você está. Muitos móveis já estiveram mobiliando esta sala, muitos sorrisos já desfilaram neste lençol e eu já perdi a conta de quantos litros de sorvete já mancharam este velho sofá. Ouça bem, não venha querendo mudar a planta, abrir fendas que eu gosto desse jeito assim, estranho. Eu te convidei pra entrar, permanecer é por sua conta.

Nessa prateleira hoje cheia de fotos nossas, muitas outras já estiveram. Outras manias, outras famílias e de vez em quando os discos dos Beatles. Let it be. Let it be. Vai se acostumando com essa presença de tantas ausências que eu, de verdade, espero que você fique. Aquele quadro ali do canto é opcional, pode jogar fora se quiser. Escuta, nesta casa que hoje também é a sua casa já morreu alguém. Pensando bem, muitos alguéns. Mas relaxa, morreram por quê quiseram, morreram fechando a porta sem me dizer tchau. Morreram levando as fotos, as tais fotos das prateleiras, e certa vez morreram quando foram embora com o Sid, meu labrador viciado em calcinhas. Tudo bem, você pode colocar suas coisas no quarto enquanto eu preparo um café pra nós dois.

Aqui, neste lugar frio, que dá para o nascente, muita coisa legal já aconteceu também. Já teve a Carlinha, que era linda, estudada e fazia o melhor macarrão que eu já comi. Teve a Luciana, que era louca, e que provavelmente continua sendo, mas ainda assim encontrava nas horas mais difíceis um jeito carinhoso de me fazer cafuné. Por aqui também já esteve a Mônica, trabalhadora que só ela, morou aqui dois anos e meio e eu só a vi duas ou três vezes. Pois bem, por aqui já passaram muitas, quase tantas como as que passaram pelo Martinho da Vila, e eu amei a todas. Amei do jeito mais puro e sincero que eu poderia amar alguém. E agora cá está você, não menos incrível, não menos querida e não menos intensa, e eu também te amo. EU TE AMO assim, em letras garrafais, só pra você lembrar quando for embora e também morrer pra mim.

Só não vá pensando isso ou aquilo de mim, que eu sou machista, saudosista ou o caralho a quatro. Eu também respeito o seu passado, também quero conhecer devagarzinho seus amores e tenho a impressão que você tem muito mais a me contar do que estes seus olhinhos curiosos. Mas fica pra outro dia, pra outra hora. Por enquanto senta aqui que eu quero te fazer feliz como eu fiz com as outras.

Honre e se orgulhe. De qualquer forma, até desculpa por isso, mas entenda, eu também vou te amar assim quando outras estiverem aqui.

domingo, 21 de outubro de 2012

Again.



Eu sei que isso tudo parece meio coisa de tonto, mas veja bem: eu acho que estou gostando novamente de você. É, já passou, você casou, separou, ficou falada depois de ir naquela festa e dançar loucamente The Killers sobre a mesa, mas ainda assim você me parece uma pessoal legal, daquelas que a gente fica bobo só de olhar. Não, eu não estou bêbado. Uma ou duas, talvez cinco doses daquela bebida verde, amarga, que se bebe em tubos de ensaio e que eu não sei pronunciar o nome. Eu tô bem, relaxa. Só liguei pra dizer que talvez ainda goste de você. Tá, eu sei, são três e pouco da madrugada de quarta feira. Escuta: eu te amo.

Por favor, não desliga. Tem alguém aí? Qual o nome dele? Ah, não tem, né? Jura? Posso acreditar? Lembra de quando você veio aqui em casa e eu estava assistindo pela enésima vez Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e você queria por quê queria me tirar da frente da televisão pra ir no parque de diversões? Lembra? Era domingo, chovia e você parecia uma grávida com desejo de brincar na roda gigante e comer algodão doce. Posso fazer uma metáfora sobre aquele dia, quer ouvir? Tudo bem, eu bebi pra caralho, estou com vontade de te ver e de vomitar, não necessariamente nessa ordem, se é que você me entende.

Mariana, acho que eu estou gostando de você de novo. Acho que eu quero que você volte a me perturbar nos domingos a tarde, que você me tire do sério novamente como você fazia ao mudar freneticamente as música no rádio do carro e, se for do seu interesse, coloco pra tocar Mr. Brightside só pra ver ver você soltar a franga na fila do banco. Não precisa ser agora, mas volte. Volte que eu acho que estou gostando de você outra vez.