sábado, 8 de dezembro de 2012

Das alianças e letreiros dourados.



É caro - disse ela. Eu já sabia. E ficávamos nos perguntando o que havia de verdadeiro ali, aquilo que nos prendia toda vez que passávamos em frente daquela placa: Amadelle Noivas. A composição era demais. Letras douradas num fundo preto. Parecia que tudo ficava calmo ao olhar aqueles vestidos brancos enormes, cheios de coisinhas que brilhavam com qualquer incidência de luz, extrovertidos. Vestidos extrovertidos. Alheios a tudo. Estava na cara que tudo que havia naquela loja fora insistentemente treinado a fazer cara de feliz. E isso era tudo que a gente precisava. Ser feliz, brilhante e, porque não, alheio.

Morávamos à três quarteirões daquele letreiro chamativo e precisávamos passar por ele pra tudo. Ir à padaria, chegar na parada de ônibus ou até mesmo por perambulância. Perambulânica. Palavra boba, acho até que nem existe no dicionário. O fato é que só morávamos juntos. Um casamento cheio de amor, compreensão e cuidado, mas sem alianças. Digo, tínhamos aliança sim, de afeto e confidência. Faltava-nos aquelas de ouro, simbólicas, trocadas no altar, aquelas que dona Marizete, minha sogra, sempre quis que a filha dela usasse no anelar esquerdo só pra provar pros vizinhos sua bela educação. Eu também queria. Izabel, idem. Mas é caro - disse ela. Eu já sabia.

Ocorreu-me uma vez de roubá-la de mentirinha, levá-la pra uma igreja e lá estaria tudo arrumado. O padre esperando ansioso para dar a bênção, as senhoras cochilando nas primeiras fileiras, dona Marizete não se contendo em lágrimas de orgulho. Tudo parecia perfeito. E nem precisaria de tanto dinheiro assim. Talvez tivesse que tirar um pouco daqui, outro pouco dali e até quem sabe eu ficasse por um tempo longe do boteco do sêo Alaor, sem a cerveja e a sinuquinha com os amigos barrigudos. Mas tudo bem. E assim eu fantasiava Bebel de amor convencionado, véu e grinalda, no seu vestido extrovertido subindo no altar e dizendo sim pra mim. O problema é que é foda. Temos muita coisa pra pagar esse ano.

É caro - disse ela. Eu já sabia, mas dei um jeito. Fiz um empréstimo com o banco, com o agiota e com dona Marizete. Dei à Izabel dinheiro suficiente pra ela comprar toda a Amadelle Noivas, certo de que ela escolheria um vestido mais simplesinho e me devolvesse o troco. E assim ela foi, sorridente ao encontro das letras douradas num fundo preto, como vespas que rodopiam freneticamente ao redor da lâmpada, e levou o que tinha direito. Cortou o cabelo, fez as unhas, foi à um spa e tomou champagne. Eu coloquei aquele terno mesmo que usava pra trabalhar, pedi a um engraxate que lustrasse o já descanhotado mocassim e estava pronto. Pronto pra receber minha mulher vestida na sua convenção cristã tão sonhada.

Casamos e logo após fomos pro motel mesmo tendo nosso próprio apartamento. Ali eu sabia que não ia durar. Parece clichê mas dois meses depois nos separamos. Talvez ainda gostássemos um do outro. Pra ela não sobrou nada. Pra mim, muito menos. É caro - disse ela. Eu já sabia.


sábado, 3 de novembro de 2012

Maneiras eficazes para acordar com ressaca.



Em primeiro lugar se abasteça com vodka. Muita vodka. Após feito esse ritual que, em algumas propagandas pode ser a abertura dos portais do paraíso etílico, onde mulheres balinesas desfilam com seus vestidos Prada olhando diretamente em seus olhos enquanto dançam músicas tão boas que dá até a impressão de que o cara é realmente você e, pra nós mortais, significa terremotos, hematomas e amnésia, siga até o primeiro bar e conheça algumas pessoas que você nunca viu na vida. Converse com elas, ria, conte todos os seus segredos e dance. Afinal de contas, a nossa meta aqui é perder completamente a dignidade.

Se despeça destas pessoas lindas e elegantes e ligue para aquela sua "amiga" que você não vê desde que, com sua finesse, terminou o noivado por sua causa. Converse, converse, não deixe a história terminar antes que ela se sinta tão atormentada a ponto de te dar o endereço da festa. Ingressos? Ingressos não importam quando você é tão gente boa que se tornou amigo de infância de todos os seguranças e hotstess da cidade. Ah, não se esqueça de tomar mais um delicioso shot de Moskovita. Coragem tem que ser nosso sobrenome. O primeiro, por mais que seja óbvio que é Falta De, é irrisório para quem conhece os prazeres de um bom porre.

Estacione, desça e tente não cair. Cair é feio. Cachecóis do Pateta são feios, mas se sua mãe disser que está frio e que se você não usá-lo vai pegar pneumonia, não pense duas vezes e acate. Pense pelo lado positivo: você vai ter um diferencial. Entre na moral, lembre-se que você está em um comercial com as mulheres mais gatas da terra e sorria. Enfim, você é o cara.

Na hora da caçada, não se acanhe. Se não for uma vai ser a outra. Bom, pelo menos alguma moça espiritualizada deve estar ali pra entender o seu sofrimento interior. Puxe papo com o pai da aniversariante e, se ele disser que é pescador, replique que você já pegou carona num navio pirata junto com outros mil caras da Somália, armados até os dentes só pra pescar os temíveis leões marinhos do focinho rosa do ártico. Geografia e biologia aqui não importam, cara, hoje a noite é sua. Aproveite o ensejo pra demonstrar que é um ótimo pé de valsa, puxe a senhora que estará à sua esquerda e dirija-se ao centro das atenções.
Antes que um tio gordo te arraste pra fora não se esqueça de perguntar se ele sabe com quem está mexendo. Argumente usando carros importados e artes marciais.

Por fim, se toda essa técnica ninja de ser O Cara não der certo, ligue pra sua ex. Ela vai adorar. Mesmo. Baldes d'água jogados da janela são artifícios semiológicos típicos de uma mulher que adorou a ligação às três e meia da madrugada de um bêbado. Sério, elas gostam muito disso.
Vá pra casa e antes de dormir acorde o prédio inteiro ligando o rádio no último volume. Descanse. Amanhã o dia vai ser longo.

sábado, 27 de outubro de 2012

Fique, mas com cuidado.



Ei, você que tá chegando agora, vá com calma, não tenha pressa de saber o que se passa por aqui, mas olha só: honre este lugar e comece a ter orgulho de estar aonde você está. Muitos móveis já estiveram mobiliando esta sala, muitos sorrisos já desfilaram neste lençol e eu já perdi a conta de quantos litros de sorvete já mancharam este velho sofá. Ouça bem, não venha querendo mudar a planta, abrir fendas que eu gosto desse jeito assim, estranho. Eu te convidei pra entrar, permanecer é por sua conta.

Nessa prateleira hoje cheia de fotos nossas, muitas outras já estiveram. Outras manias, outras famílias e de vez em quando os discos dos Beatles. Let it be. Let it be. Vai se acostumando com essa presença de tantas ausências que eu, de verdade, espero que você fique. Aquele quadro ali do canto é opcional, pode jogar fora se quiser. Escuta, nesta casa que hoje também é a sua casa já morreu alguém. Pensando bem, muitos alguéns. Mas relaxa, morreram por quê quiseram, morreram fechando a porta sem me dizer tchau. Morreram levando as fotos, as tais fotos das prateleiras, e certa vez morreram quando foram embora com o Sid, meu labrador viciado em calcinhas. Tudo bem, você pode colocar suas coisas no quarto enquanto eu preparo um café pra nós dois.

Aqui, neste lugar frio, que dá para o nascente, muita coisa legal já aconteceu também. Já teve a Carlinha, que era linda, estudada e fazia o melhor macarrão que eu já comi. Teve a Luciana, que era louca, e que provavelmente continua sendo, mas ainda assim encontrava nas horas mais difíceis um jeito carinhoso de me fazer cafuné. Por aqui também já esteve a Mônica, trabalhadora que só ela, morou aqui dois anos e meio e eu só a vi duas ou três vezes. Pois bem, por aqui já passaram muitas, quase tantas como as que passaram pelo Martinho da Vila, e eu amei a todas. Amei do jeito mais puro e sincero que eu poderia amar alguém. E agora cá está você, não menos incrível, não menos querida e não menos intensa, e eu também te amo. EU TE AMO assim, em letras garrafais, só pra você lembrar quando for embora e também morrer pra mim.

Só não vá pensando isso ou aquilo de mim, que eu sou machista, saudosista ou o caralho a quatro. Eu também respeito o seu passado, também quero conhecer devagarzinho seus amores e tenho a impressão que você tem muito mais a me contar do que estes seus olhinhos curiosos. Mas fica pra outro dia, pra outra hora. Por enquanto senta aqui que eu quero te fazer feliz como eu fiz com as outras.

Honre e se orgulhe. De qualquer forma, até desculpa por isso, mas entenda, eu também vou te amar assim quando outras estiverem aqui.

domingo, 21 de outubro de 2012

Again.



Eu sei que isso tudo parece meio coisa de tonto, mas veja bem: eu acho que estou gostando novamente de você. É, já passou, você casou, separou, ficou falada depois de ir naquela festa e dançar loucamente The Killers sobre a mesa, mas ainda assim você me parece uma pessoal legal, daquelas que a gente fica bobo só de olhar. Não, eu não estou bêbado. Uma ou duas, talvez cinco doses daquela bebida verde, amarga, que se bebe em tubos de ensaio e que eu não sei pronunciar o nome. Eu tô bem, relaxa. Só liguei pra dizer que talvez ainda goste de você. Tá, eu sei, são três e pouco da madrugada de quarta feira. Escuta: eu te amo.

Por favor, não desliga. Tem alguém aí? Qual o nome dele? Ah, não tem, né? Jura? Posso acreditar? Lembra de quando você veio aqui em casa e eu estava assistindo pela enésima vez Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e você queria por quê queria me tirar da frente da televisão pra ir no parque de diversões? Lembra? Era domingo, chovia e você parecia uma grávida com desejo de brincar na roda gigante e comer algodão doce. Posso fazer uma metáfora sobre aquele dia, quer ouvir? Tudo bem, eu bebi pra caralho, estou com vontade de te ver e de vomitar, não necessariamente nessa ordem, se é que você me entende.

Mariana, acho que eu estou gostando de você de novo. Acho que eu quero que você volte a me perturbar nos domingos a tarde, que você me tire do sério novamente como você fazia ao mudar freneticamente as música no rádio do carro e, se for do seu interesse, coloco pra tocar Mr. Brightside só pra ver ver você soltar a franga na fila do banco. Não precisa ser agora, mas volte. Volte que eu acho que estou gostando de você outra vez.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Piscicultura, amor e outras coisinhas.



Não sei por onde andava essa felicidade de criança fazendo bolha de sabão, não sei mesmo. Como é que eu pude fazer desfeita de tantos sonhos bons, de tanta correria, de tanto fica-aqui-que-eu-quero-tirar-uma-foto-sua. É que às vezes a gente se perde por querer, por covardia, por tanta filha da putice, por tantos tantos. Engraçado é saber que você sempre esteve aí e eu nunca vi. Engraçado é pensar que hoje um sorriso   
seu muda tudo. 

Domingo passado eu sonhei com você e fiquei com vergonha de lhe contar. A gente estava numa chácara, conversando abraçados, seus olhos caramelos refletindo tudo o que o sol pode brilhar. Depois um peixe de dois metros mordia meu braço. Coisa de sonho. Atenha-se no que há de bom: acordei com o braço dormente e a sensação de que nós dois, um dia qualquer, podia dar certo. Sem chácara, sem peixe, aqui no meu apartamento mesmo. 

Você sabe que eu sou bobo. Você só precisava saber que é por você.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O amor segundo Aristótoles.



Preciso descobrir seu conflito - eu diria se tivesse um pouquinho mais de intimidade com você e estivessemos conversando deitados na cama, olhando pro teto, depois de um sexo ácido. Entender a sua linha dramática, fazer uma decupagem semiológica das suas circunstâncias pra lhe dizer aonde é que que quero chegar com esse enredo. Mas não, apenas continuo em silêncio à observar o desenrolar de um filme que eu já vi.

Eu posso começar assim; você me pede pra buscar gelo sem se preocupar se eu estou com a mão suja, me escuta atenta e com os olhinhos mais mágicos que já vi, se perde quando lhe peço pra vir comigo - eu, você tá me chamando pra ir com você?, e deixa transparecer que está orgulhosa e aflita ao mesmo tempo como se estivesse pronta pra ingressar em um avião e conhecer um país novo. Ah, e o velho truque de me dar atenção... esse você usou bem! Pra terminar você bota uma vírgula e me chama de Chicão. Porra, Chicão é foda. Chicão é muita intimidade pr'uma garota que eu acabei de conhecer e quero amar pro resto da vida.

Desenrola-se que isso me deu tanto tesão que, aproveitando que o aniversário dela seria semana que vem, eu comprei um presentinho e marquei um vinho lá no meu apartamento pra entregar. Daí eu não posso ir e também não ligo desmarcando. O clima fica tenso. Rufus Wainwright começa tocar ao fundo e eu quase posso me ver passeando cabisbaixo no Central Park, sobre as folhas amarelas do outono.

Eu a procuro, peço pra ela vir buscar o presente aqui no meu trabalho mesmo, digo que a gente pode sair depois, tomar um café e conversar. Ela disse que vem. Eu aqui espero pra ver como essa história vai terminar.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

A lua amarela dos intelectuais e loucos.


Ninguém quer escrever sobre o amor. Ninguém quer falar de amor. Você disse que queria ficar um pouco mais. Pronto, se esta sociedade de merda fosse minimamente mais sensível, isso seria manchete do New York Times por uma semana. Você nunca quis permancer nem um segundo além do estipulado, sempre tinha uma ligação pra atender, uma mensagem pra enviar e uma hora pra chegar. Mas na sexta, ah, na sexta você disse que queria ficar.

Lá fora o mundo pulsava e parecia que ia explodir a qualquer momento, as luzes piscavam, os carros rodavam, mulheres davam, filhos nasciam, mas a gente estava ali, doidos pra que aquela noite fosse tão somente a alegoria do pra sempre.

Alguém disse alguma sobre intelectuais e loucos, sei lá, não lembro bem. O fato é que nada pra mim será tão inesquecível como teus olhos nos meus olhos e a sensação de que juntos somos imbatíveis. Tudo bem, foi só uma ou duas partidas de truco pra mediocridade do mundo mas, pra mim, pra mim que gosto tanto de você, bastou como bastam três mordidas num McLanche Feliz pras crianças ocidentais cagarem pro resto do universo.

Eu gosto de você, é fato e é prolixo. Eu gosto de você independente de quem você gosta, independente das garotas que eu transo, independente de tudo. E eu gosto de você em silêncio, pra não perturbar seu sono, pra você não se assustar.  A lua amarela que brotou no céu na hora em que você foi pra casa foi só um exemplo.