terça-feira, 22 de abril de 2014

Filosofia do tato.



Era tudo seu e eu nem sabia. Cada parte daquele lugar tinha uma coisa que, por mais indecifrável que fosse, lembrava você. E eu te dava bom dia sem saber que você era dona de tudo aquilo. Dona por que ali tinha um toque seu. Não um toque na decoração da sala ou no design das saboneteiras de aço escovado do banheiro. Eram toques, marcas de dedo e suor no armário, na prateleira, na garrafa de café. Bobo como sou, também fui me encostando devagarinho, pouco a pouco, e me perdendo neste orgasmo alquímico de sentir você onde você já não estava mais.

Um dia eu também não estava mais lá e tudo era frágil demais para que alguém se desse conta. Mas suas digitais ficaram nas minhas digitais como um menino que não quer largar o doce, como a loucura não larga a película de Buñoel. E eu vou te levando com o cuidado e a delicadeza que merecem os seus grãos de matéria invisível na ponta dos meus dedos. Guardo para sempre cada pouco que for seu.

E, penso agora, nossas mãos, de fato, nunca se encontraram. Mas, como tudo, o papel do sonho de valsa que te dei, em algum lugar, também é detentor do nosso aperto comovido e inexistente. Um pedacinho de papel de bombom a vagar por aí carregando toda a sentimentalidade que é só nossa. Aqui comigo a certeza desesperada de te encontrar logo, em carne viva, para um encontro de corpos menos informal.

Só eu, eu e o caracóis que vivem a roçar por aí, sabemos que alguma coisa fica deste toque. Senão a eternidade, pelo menos o rastro que mostra o caminho.

O dia.



Naquele mesmo dia que eu te jurei pela enésima vez que iria devolver Nick & Norah para a locadora. Naquele mesmo dia em que o vizinho chegou de madrugada tocando o foda-se. Naquele mesmo dia que comprei o box dos Beatles para o aniversário da sua mãe. Naquele mesmo dia que você foi de ônibus por que deixou o carro travar com a chave dentro. Naquele mesmo dia que o chaveiro não apareceu. Naquele mesmo dia que choveu. Naquele mesmo dia que eu chorei por você não voltar.

Naquele mesmo dia que eu quebrei seu relógio. Naquele mesmo dia que eu me arrependi por falar as coisas mais terríveis ao telefone. Naquele mesmo dia que você mudou o número do celular. Naquele mesmo dia que as suas coisas passaram a não ter mais valor. No mesmo dia que valor passou a ser uma palavra sem sentido. Naquele mesmo dia que fiz pipoca para assistir de novo Nick & Norah. Naquele mesmo dia que a chave do vizinho babaca também abriu o carro. Naquele mesmo dia que sorvete de flocos passou a se chamar solidão de um litro e meio. Naquele mesmo dia que eu decidi te esquecer e não consegui.

Naquele mesmo dia que gastei uma nota preta em whisky doze anos. Naquele mesmo dia que eu descobri que preço não mata saudade. Naquele mesmo dia que eu não consegui dormir. Naquele mesmo dia que eu virei pensando no que tinha feito de errado. Naquele mesmo dia que não deu certo. Naquele mesmo dia que poderia ser diferente. Naquele mesmo dia que eu recebi uma mensagem da sua mãe. Naquele mesmo dia que eu violei a embalagem de Magical Mistery Tour. Naquele mesmo dia que parou de chover. Naquele mesmo dia que eu quis que fosse mentira.

Naquele mesmo dia que eu dei bom dia pra você com o sorriso mais sincero. Naquele mesmo dia que você acendeu um cigarro e nem percebeu. Naquele mesmo dia que eu quis ficar na cama. Naquele mesmo dia que você saiu. Naquele mesmo dia que eu te disse que era minha folga. Naquele mesmo dia que eu gostaria de ter trabalhado pra não pensar bobagem. Naquele mesmo dia que tudo acabou. Naquele mesmo dia que implorei pra recomeçar.

Naquele mesmo dia eu ainda espero um buquê de flores ou um cartão. Naquele mesmo dia eu ainda espero ver você entrando. Naquele mesmo dia eu decido que eu não quero mais mudar o calendário. Naquele mesmo dia que ainda não passou. Naquele mesmo dia que eu estou permanecido. Naquele mesmo dia que o seu silêncio não muda nada. Naquele mesmo dia eu sonho com aquele dia que um dia, fatalmente, chegará.


sexta-feira, 4 de abril de 2014

3x4


Ela não queria mais ser fotografada. E selou um pacto silencioso com o espelho: não te ligo e nem você me telefona. Não por que tinha nascido uma espinha bem na ponta do seu nariz ou por que sorvete de chocolate é mesmo uma delícia. Era algo mais. Era como se fosse alguma coisa bonita -só que feia. E, a priori, não queria pensar no assunto: lhe bastavam os retratos do colegial e as sentimentalidades que enfeitavam sua pose.

Uma hora ele vai ter que telefonar, ela pensava. Fantasiava o instante em que aquele babaca que a amava se arrependesse de aceitar o seu fora, o momento em que ele esquecesse sua submissão em acatar todas as palavras duras que ouviu. E aquilo foi roubando de pouquinho em pouquinho a sua alma, como se imprimisse na emulsão de prata aquela falta de cor, aquele preto e branco indiscreto. Talvez por isso passou a viver com os olhos baixos, a fuzilar o celular. Mas ele não ligou.

Alguém poderia lhe interromper na rua, alguém que lhe falasse umas boas verdades na frente de todo mundo na padaria, afinal de contas, uma merda monumental como esta, de deixar passar aquilo que os inocentes emocionais chamam de alma gêmea não poderia passar despercebida. Nada. Sua dor, capturada pela infinitésima fração de segundo do diafragma, era só sua. E, como uma foto três por quatro que a gente esquece na carteira, tudo estava ali e já não estava mais.

De qualquer forma (e não importam quantos sóis apareceram para acordá-la), um dia ela amanheceu pra dentro. Levantou-se e vestiu o coração com o melhor colorido que havia em seu armário decidida a revelar seus negativos. Bem que tentou ligar ela mesma pra ele, de repente ouvir alguma coisa boa que ajudasse a regar as margaridas na janela. Caiu na caixa todas as vezes e o recado que, lívida, ela deixou não poderia ser mais pertinente: foda-se.

Sacou a câmara e saiu tirando várias fotos de si mesma pelo mundo, preenchendo com sorriso e botox seus espaços vazios. Uma fotografia honesta, sem photoshop de quem aprendeu que cabeça erguida é sempre seu melhor ângulo.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Se há.



Eu queria mesmo saber se você ainda se lembra de mim. Sabe, não desse jeito nostálgico e idiota que me lembro de você. Se você lembra quando a gente se conheceu, você ainda de cabelos vermelhos encaracolados usando um aparelho de bréquetes horríveis. Por que as vezes me esqueço e não quero esquecer e isso me dá um nó no estômago só de pensar que posso perder a única coisa que você deixou aqui: a saudade.

Se você se lembra de quando pedi salmão pra nós dois e você odiava salmão, se você ainda tem aquela foto de quando desci do carro quando íamos pro sítio, aquelas pequenas coisas que vão se empilhando nas prateleiras e que a gente uma hora tem que jogar fora. Você se lembra de alguma delas? Eu já não tenho mais nada fora essa imensa vontade de voltar no tempo e dizer ei, você tá linda, só vou na frente por que estou com pressa. sem grilo e saber que você não se sentiu uma imbecil por amar aquele moleque que não gostava de andar de mãos dadas.

Queria saber se você tem alguma coisa de mim por aí, aquela peça que hoje me falta pra eu me sentir inteiro novamente. Um livro, uma revista rara que, de repente, eu possa ter esquecido no seu quarto ou até mesmo um ponto final. Me diz, o que de mim ainda te perturba, que superfulo necessário você não quer jogar fora? Saber se você ainda continua tendo aqueles pesadelos, se conseguiu, enfim, sentir-se realizada com aquela porra toda que você faz por que leu em algum lugar ou se ainda só consegue dormir se estiver abraçada com o ursinho cor-de-rosa que dei.

Menina mulher, flor temerária, faz tanto tempo que a gente não se vê e saber que você está feliz me dói. Dói pra caralho por que também estou feliz e há cinco anos atrás o plano era sermos felizes juntos e não assim, cada um pro seu lado. Talvez não gostasse de você tanto assim e nem você se interessasse de verdade nos meus papos pequeno intelectuais, mas havia ali alguma coisa que ficou. E aí, será que você ainda lembra de mim?

Será que você sente o mesmo carinho que eu sinto quando vejo uma foto sua celebrando uma nova conquista e pensa em silêncio que poderia estar ali? Será que você ainda lembra de mim orgulhoso por estar com a mais querida entre as mais queridas das minhas namoradas? Ou será que me esqueceu como esqueci o dia do seu aniversário e o segundo nome do seu ator predileto? 

Me encanta e isso basta. De qualquer forma estaremos na nuvem, no gerenciador de arquivos infinitos, das memórias das horas mais bonitas e dentro de tudo aquilo um dia a gente chegou a acreditar que era nosso.
Na canção que te fiz e nos olhares que me lançou. Na eterna forma de amar alguém que marcou um pedaço da sua história e coloriu o silêncio do calendário com o céu de tanto tempo atrás.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Filosofia.



*Não faço sala para o ciúme. Ciúme é coisa de quem só tem tesão. Eu tenho orgulho e o tesão é apenas uma parte dele.

*Solidão é algo que se constroi a dois. Nenhum edício, ainda que no meio do nada, é erguido sozinho.

*Uma rua jamais será a mesma depois que passamos juntos por ela. Sempre haverá um pouco de nós dois em cada letreiro
de neon.

*Você não sente falta dele. Sente fome ou uma saudadezinha das janelas de madeira do seu quarto antigo. Por ele, talvez,
ainda seja amor.

*Me afeto com cada incidência de luz; sou como emulsão de prata, quanto maior seu colorido, melhor a fotografia.

*Ainda que eu esteja em seu calendário e você na minha guitarra, não há nada que nos prenda. Isso é só a canção dos dias.

*Algum dia outro passará os dedos por entre seus cabelos azuis e não seremos mais do que uma calçada pisada e uma música
dos Stones.

*Quero conhecer cada milímetro da tua língua. Cada espaço vago do teu corpo. Um dia tudo isso vai passar.

*Posso pirar e querer descobrir como vivem os guaranis do médio xingu. Ao voltar só quero um abraço teu e um chopp sem
colarinho.

*A vida é selvagem e ensina todo dia a voltarmos a viver como bichos. Qualquer olho no olho é sinal de sofisticação.

*Delicadeza é indicativo de que se está pleno com tudo isso. Delicadeza demais, não me leve a mal, é omissão.

*Vermelho é lindo no batom, nunca nas unhas do pé. Casamentos terminam por coisinhas pequenas que poderiam ser evitadas
com sabedoria estética.

*Talvez nunca lhe mandarei flores ou chocolates. Fica apenas a certeza de que te quero e que me bastam estas tardes ao
teu lado.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Soft Erotic Project



Ela era uma grande amiga. E ainda é, eu acho. Faz duas semanas que não a vejo e me sinto meio babaca por não ter ligado no dia seguinte. As vezes me pego pensando que o que aconteceu serviu como uma lição dolorida para nos aconselhar a não misturar as coisas, a daqui pra frente aprender a lidar com certas situações que nos aparecem como um elefante cor-de-rosa bem  no meio do eixão: bom, é estranho, mas é Brasília e em Brasília tudo pode acontecer. E tudo parece agora esquisitão depois do dia em que nós não fizemos amor.

Era bem tarde, já passava das duas da manhã, eu acho, quando meu telefone tocou. Estava saindo de um buteco com alguns amigos e ela dizia que precisava falar comigo. Ela morava em um apartamento no mesmo prédio que eu e quando fui ao seu encontro, ela já estava virando a chave. Nossos apartamentos não serviam como palcos do que ela queria dizer, muito pessoal, falou ela, cheio de coisas que nos lembram tantas outras coisas. E a gente saiu no jipe prata dela, perdidos na madrugada pela w3.

Tudo fechado. Tentamos até disfarçar com uma cerveja na frente do supermercado vinte e quatro horas mas ela tinha assunto pra virar a noite, e era sexta, então pra mim tudo bem. Sugeri que alugássemos um quarto de motel que, assim, poderíamos ver o dia nascer enquanto tomava uns bons drinks e ela vomitasse toda sua ira por não conseguir encontrar o fio da meada da monografia, suas tretas com a orientadora substituta e seu amor pequeno burguês com o professor de teoria crítica e história da arte. Péssima ideia. Percebi de cara assim que ela aceitou.

E tudo parece esquisitão depois do dia que nossos olhos se encontraram pra valer, semi nus na banheira de hidromassagem, falando de coisas sem sentido depois da septuagésima marguerita. Tanta coisa pra nos incomodar, nos intimidar - tinha esquecido de cortar as unhas do pé e você a parte de cima da lingerie - e a gente se acanhou só por que, depois de quase três anos, a gente enxergou dentro um do outro a peça chave que faltava em nossos quebra cabeças. E a gente riu.

Lá pelas cinco da manhã pagamos a conta de tudo isso que aconteceu e nos despedimos ainda na garagem do nosso prédio. Um abraço meio envergonhado e a gente caminhou, cada um para o seu lado, procurando as chaves e tendo a certeza de que tudo tinha mudado naquela noite. De qualquer forma, minha amiga, foi bom te conhecer.

Do que dizem.



Quando Elano se olhou no espelho observou uma pequena cicatriz no ombro esquerdo. Elano estava nu e sentia todos os poros como se fosse a primeira vez; o suor a florescer tímido e escorrendo pela pele, os fios de cabelo molhados. Ficou ali por alguns instantes se perguntando como só havia notado aquela marca agora, depois de tanto tempo de amizade com aquele corpo que foi lhe dado como presente ao ingressar na deliciosa tarefa de viver.

A cicatriz era bem nivelada, não era algo que causasse espanto. Conferia até um charme maduro em sua simetria quase perfeita com os ombros largos de Elano. Vestiu-se. Mariana não estava mais ali para dividir com ele a nova descoberta. Mariana agora era um retrato na sala e sua foto parecia não se interessar nem um pouco com essa história. Elano acreditou não ter visto a cicatriz por que Mariana dormia sempre com a cabeça no seu ombro esquerdo. E Mariana parecia rir disso na foto sobre a prateleira..

Pra dor de amor não há aspirina que resolva, o jeito é colocar aquela música dos Beatles e deixar que a vida toque no seu ritmo. É muito fácil dizer que tudo bem quando se tem um estoque de pequenas coisas pra cuidar, mas Elano só tinha que tirar a poeira da fotografia de Mariana duas ou três vezes por hora. De resto pode-se dizer que o mundo fica imensamente feliz com um bom rock inglês.

Mariana havia ido embora com tudo - levou as pernas do retrato, os cabelos do retrato. Mas Mariana, curiosamente, ainda estava ali pregada naquela fotografia. Seu sotaque horrível, sua mania linda de tomar banho de porta aberta e seu jeito colorido de arrumar as canecas no armário. Sim, a cicatriz! Mariana deixou em Elano a cicatriz que tinha no tornozelo. É isso! Mariana queria se fixar na pele calma de Elano, onde as gotas de suor nascem e escorrem lentamente, a marca indelével de suas histórias, o verdadeiro retrato do que ficou.

Elano bebeu o que restava no copo e saiu. Dizem que Elano comprou uma casa na Guarda e oferece cadeiras de praia pra ganhar o pão desde que descobriu que sua cicatriz deveria estar sempre exposta, sob o sol de Floripa, para o mundo ver que naquele corpo o amor já fez morada.