quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Das coisas que a gente deixa pra trás.



Acho que era teoria mesmo. Furada. Estava lá, os signos nunca mentem. Acho que a gente leu o zodíaco do jornal passado. Não era pra ser. Estava tudo errado. Você nunca entenderia. A gente nunca sabe o que quer. Isso se chama era dos extremos, Plutão não entra em Saturno. Marte não encontra Urano e nós éramos só vinho mesmo.
Uma vez eu atropelei um gato. Preciso te contar essa história. Fiquei anos lamentando e me martirizando por isso. Parei o carro, desci e fui procurar o pobrezinho no asfalto. Eu devia ter passado com tanta velocidade que não sobrou nada. Nem rastro. Outro dia, no mesmo lugar, o mesmo gato zoneava com duas crianças na beira da pista. Era ele. Lindo, grande, gordo e cinza. Vivo.
O mesmo aconteceu com a gente. Quando acreditei que tinha passado a toda pelos seus sonhos, pelos seus planos e seu colorido, me vem você, cheia de sorrisos, brincando na beira de tudo. Viva.
Não há por que olhar pro céu, para os os planetas e fantasiar intenções. O nosso dia é a gente que faz. Não vamos botar a culpa no sistema solar. Pode ser que venha um asteroide e acabe com tudo. Como eu fiz com o gato que não morreu. Como eu fiz com você que nem sentiu.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Foi-se.



Duas da manhã e o telefone toca. A gente precisa conversar. Pô, tem que ser agora mesmo? Claro que sim, por quê, pra você não dá? Você não entende mesmo essas coisas. Tudo bem, vai, fala. Mas fala baixo que eu ainda não acordei direito. Sabe, pra mim não dá mais. Não dá o quê, meu amor? Ah, sei lá, acho que a gente se precipitou, tá acontecendo rápido demais, isso tá me sufocando... Tá, entendi. Você andou bebendo? Aí, tá vendo como você é, te ligo pra me abrir e você fica com essas bobagens, a Claudinha é que estava certa, você é um escroto mesmo. Precipitação, rapidez, Claudinha, escroto, beleza, vai falando aí que tô ouvindo, vou só beber água. Não. Pra mim já deu. Vou desligar. Não dá pra ter uma conversa adulta com você.

A gente se conheceu numa festa lá em casa, trocamos umas ideias, tomamos um vinho, deixamos o vinho nos tomar e bam! Lá estávamos nós, transando bêbados dentro do carro, o vidro embaçando, a chuva caindo e a gente se perdendo. Era pra dar tudo certo se nós não fossemos tão errados. Ela tinha muitos segredos que não cabiam nas minhas metáforas. Eu tinha muitos desejos que não respeitavam suas cláusulas. Aí dá nessa. Duas da manhã o telefone toca.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Porranós! ( Ou deixa )



Deixa que o amor é meu. Dou pra quem quiser. Agradeça se foi pra você. Mas deixa, que mal mesmo ele só faz a mim. Deixa que eu me faça um estrago, que eu me foda. Deixa que o amor é meu.

Deixa eu te sentir em saudade que, pra te dizer bem a verdade, nem dói tanto assim. Deixa que eu te sinta mesmo distante, que eu te queira, que eu te zombe, que eu te cante. Deixa, que isso logo passa e daqui um tempo você nem vai lembrar de mim. Deixa que o amor é meu.

Deixa que o amor é meu. Fico com ele, se for o caso. Se a você ele já pertence, simplesmente deixe. Deixa que de você ele só quer o bem. Deixa ele ele se fazer de vítima. Deixa ele parecer um otário. Mas deixa. Deixa que o amor é meu.

Deixa pra lá, você nem quer mesmo saber. Deixa na memória. Deixa na lixeira. Jogue tudo fora mas deixa. Deixa que essa porra de amor é meu. Não vá me julgar pelo meu carro sujo, pela minha barba por fazer, que eu não julgo você por nada que é seu. Então deixa, deixa que o amor é meu.

Deixa que o amor é meu e eu amo quem eu quiser. Você, ninguém, eu. Não precisa se preocupar que eu não sou nem um louco, talvez um pouco, mas deixa. Deixa que este amor é de Deus. Ou melhor, deixa que esse amor é meu.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Sobre vocês dois.



Aquela velha cara de bobo volta a lhe esculpir o rosto. Não há mais como negar e seus atos já não obedecem a razão que, desde menino, era sua mais irrevogável característica. Já se apaixonou por outras, é fato. Mas a feição de cachorro sem dono desta vez tinha mais sentido do que nunca. Puta que o pariu, que se foda essa porra de sentimento escroto. Não queria se apaixonar. Já não podia se apaixonar. De repente, como num legítimo, porém não menos paradoxal gavião, que voa o mais alto possível mas se deixa cair livre e loucamente na captura de sua presa, ele se jogou. Dane-se, não haviam chances de conviver com o que sentia sem a presença dela por perto. E foi então que a cegueira lhe tomou os olhos, a timidez invadiu a boca, a loucura os ouvidos e sua face se transformou na alegoria de uma paixonite dos quinze anos de idade.
Certo dia, ele olhou com mais calma no espelho e viu que não era tão ruim assim. As sobrancelhas estavam arqueadas e lhe conferiam um ar misterioso. O blasé que sua egotrip demostrava, agora era risada alta na madrugada. Com os tímpanos mais aguçados dá-se pra ouvir melhor as incertezas que ele tanto se amarra. E o olfato? Que coisa boa sentir a leveza das coisas leves, o cheiro da insegurança se transformando em delicadeza. Como num passo de mágica, ele passou a se encarar bem melhor. Foi aí que ele vestiu o seu melhor sorriso e saiu pra levá-la ao trabalho.
Se você estiver aí, isso mesmo, você que ele tanto ama, estiver lendo esse apelo de um amigo que não aguenta mais esse lenga lenga, por favor dê sinal de vida. Escreva que é recíproco ou o mande pra casa do caralho no seu mural do Facebook. Mas faça alguma coisa, eu já não aguento mais.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Ele e, talvez, ela.



Ele já acabou com tudo. Os dedos egocêntricos já não passeam pela nuca e os livros, estupidamente, definharam com os pingos de café das noites em claro. Definitivamente ele não era mais o mesmo. Sem seus discursos pseudo filosóficos, sem as bebedeiras homéricas que, vez ou outra, lhe conferiam até um certo charme, sem boca, sem pernas, sem sentido e sem razão ele anda caminhando a esmo. Ele, que antes disso por tantas vezes fora insultado na rua por mães alucinadas, pedindo ora pra sair da vida de suas filhas, ora pra mendigar alguns esparcos instantes em sua companhia, agora não tem prazer em outros corpos e, talvez por isso, andam até dizendo por aí que ele enlouqueceu. Tudo por ela.
Ela também o amava, mas amava de outro jeito, de outras formas de amor. Ela se amarrava no jeitinho apaixonado dele mas, no fim de tudo, não dá pra se amarrar e amar, três letras ficariam de fora dessa loucura. Com aquela coisinha dentro que só quem se perde acha, ela o conquistou. Sem querer, sem palavras e jogando o cabelo pra trás. Não há o que entender. Tampouco o que se explicar. Ela o ama, mas ela não o quer. Ele que morra de saudade em algum hospício qualquer.
Os dois se encontram quase todo dia e sem perceber vão se perdendo. Ele vai se acabando. Ela, coitada, já está no barco. Acho até que um dia eles vão se casar. As coisas mudam, cara. Amanhã é outro dia. A festa vai reunir os velhos amigos. A nova casa se encarregará de abrigar o velho amor. Perdidos provavelmente envelhecerão juntos. Mas que seja logo. Antes que ele se acabe e ela se perca.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Dez motivos pra eu estar assim



1. Não há nada mais interessante no prazer do que a dúvida, e eu não sei se fico e te surpreendo com um cafuné, ou se compro uma passagem pra Uberlândia e não volto nunca mais.

2. Você caminha na intenção de chegar, dá passos largos, apressa-se mas pára, acende um cigarro e espera alguma coisa que eu não sei bem o que é. Sinto isso desde criança, quando corria loucamente procurando pelo café da minha avó, que é o mais gostoso que já provei, e desistia quando me lembrava que o calor me queimaria a boca. Isso é lindo. Você é linda. Me lembra coisas boas.

3. Quando você mexe no seu cabelo, me dá a impressão que todo o resto não interessa. Minhas filosofias, minhas intenções, minhas frases feitas, nada disso importa quando os seus dedos passeam da fronte a nuca.

3.1. Existe um provérbio marroquino que diz que dá pra amarrar um elefante com um fio de cabelo de uma mulher. Acrescento: se com um fio de cabelo de uma mulher dá pra amarrar um elefante, meu coração é fichinha.

4. Você sabe demais de mim. Isso já é um grande motivo.

5. Eu fico tão bobo quando me deparo com o infinito do seu olhar. Como assim chega de melodrama e vai explicando logo que bobagem é essa?

6. Meus amigos dizem que você combina em tudo comigo e que se eu perder essa oportunidade, eles vão rir de mim até o dia do juízo final. Não, eu não ligo para o que as pessoas dizem e pensam de mim mas, putz, isso é mais óbvio do que uma linha reta não fazer curvas.

7. Beleza, não precisa ficar com raiva que eu já vou ser mais objetivo.

8. Dificilmente nessa cidade eu vou encontrar outra gata como você. Outra com o seu sorriso, com as suas conversas, com a sua cabeça, com o seu jeito. Então é bom você indo se acostumar com a minha perseverança, que eu não entro no jogo pra perder. A não ser que seja pôquer, esse eu acho muito difícil e eu não garanto nada.

9. Você pensa no futuro e, assim como eu, procura por dias melhores, bebidas melhores. Tem o bom senso, e a loucura, dos que são apaixonados pela arte, pela boa música e pelo cinema iraniano. Mas não liga pra nada disso se a champagne estiver bem gelada.

10. Enfim, você é foda. Quer andar comigo de mãos dadas?

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Ainda há vida, Margarida.



Podia ser desespero. Podia ser só vontade de dividir a pipoca com alguém durante um filme do Fassbinder. Podia ser desejo, tesão, eros e coisa e tal. Podia ser a intenção de dar o braço a torcer. De dar o braço pra servir de cobertor em noites assim, frias. Podia não ser nada. Podia ser tudo. Podia ser viagem pra Floripa. Podia ser viagem na maionese. O que não podia era o silêncio.

Ela olhou de lado com aqueles olhinhos de vem, me pega, me pega com gosto, mas me pega com carinho pra não me machucar, deu um gole pesado no copo de cerveja e sorriu. Queria saber sobre mim, quantas carteiras de cigarro eu fumo por dia, quantos poemas eu já fiz, saudade eu tenho de quê e por quê que eu não me declarava logo. Afinal de contas, já passava das onze e ela tinha que ir.

Ela cruzou as pernas como quem diz vem e abre, descobre, desdobre e faça o que quiser de mim, mas vá com calma que tem gente olhando e eu sou uma menina de respeito, deu um trago no seu filtro vermelho e chorou. Contou-me da sua vida, da vida alheia e dos maus tratos às focas na antártida. Quis saber dos meus segredos, dos meus medos e eu consenti enquanto passeava os olhos nos seus olhos, peitos e coxas.

A gente se alimentou, hibernou, comeu de novo, fez silêncio, assoviou o Bolero de Ravel umas três vezes cada um, contou piada, riu, chorou, lembrou, pediu uma pizza e foi assistir televisão. Às três da madrugada ela tomou juízo e um táxi e sumiu. Deixou a louça lavada na pia, a metade da calcinha e um bilhetinho que dizia assim:

- Não volto mais. Não que eu não queira. Não que eu não possa. Não que eu não gostei. Só não volto mais. Não quero mais pular a janela do décimo quinto andar cada vez que encontrar você. Chega de sofrer e dar trabalho aos bombeiros. Chega de me ausentar de mim enquanto estou dentro disso aí que você vive. Adeus pra sempre, Margarida.

Pelo menos não o silêncio.