quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Se mal me queres.

Hoje eu acordei gostando de você um pouquinho mais. Sério. Assumo, em definitivo, que curto quando alguém não me dá bola. E olha, você é mestre nesta matéria de me ignorar. Talvez por que eu tenha mandado a trigésima quinta mensagem no facebook e você não respondeu. Talvez por que eu tenha pensado em você muito mais do que o normal. Acontece que hoje eu acordei gostando de você um tantão a mais.

Não digo isso para provar a minha personalidade insistente, que chega quase a cair no clichê melodramático do amor incompreendido. Digo por que eu quero você de verdade e não é nenhuma vergonha pra mim ficar implorando um minutinho da sua atenção. Acho até que, se estivéssemos no século XV e eu fosse esse mesmo cara que sou agora, aquele que escreve mil poesias para a donzela amada, eu seria o cavaleiro mais galante do pedaço. Mas eu não sei andar a cavalo e, cá pra nós, você não é tão donzela assim.

Sabe, talvez essa loucura toda, por esses anos todos, seja apenas pelo fato de você existir em mim sem existir pra mim. Talvez se você tivesse dito sim e caído de amores eu teria te esquecido no minuto seguinte. Ou se você fosse aquelas minas grudentas que a gente disfarça e finge que viu. Ou se você me telefonasse toda sexta feira às três da madrugada pra saber onde estou. Mas não. Você é daquelas que não dão a mínima. Daquelas que a gente precisa rastejar pra conseguir tomar um chope e conversar, mesmo que esse papo seja sobre o câmbio flutuante da Rodésia Oriental.

Hoje eu acordei gostando de você um pouquinho a mais. Dos seus olhos que não me olham. Das suas mãos que não me tocam. Da sua atenção que não é pra mim. Querendo provar essa omissão desejante no mais profundo desinteresse da sua parte. Eu gosto de você por que você é assim e, se desse jeito eu tiver você pra sempre, não me queira jamais.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Curioso.


Eu quero ler o seu diário. Saber quem foi seu último namorado, o endereço do seu trabalho e quando fumou seu primeiro cigarro. Eu quero conhecer você por dentro. Se o seu sobrenome tem acento, qual o andar do seu apartamento ou se já pensou em mim em algum momento. Eu quero conhecer você por fora. Toda e agora. Se algum dia bebeu e perdeu a hora e se sente vontade de ir embora.

Eu quero ler o seu diário. Aprender seu dicionário, se o que eu desejo é errado e quantas gavetas tem o seu armário. Eu quero você pra sempre. Descobrir a marca do seu absorvente só pra que não haja vergonha entre a gente. Eu quero entender suas manias, por que brigou com aquela amiga ou quando será o nosso grande dia. Eu quero reparar no seu pé. Fingir que você tem chulé só pra rirmos disso até quando der.

Eu quero ler o seu diário. Conhecer sua missa. Ser seu vigário. E dos beijos mais loucos de amor fazer um plágio. Eu quero saber cada detalhe, se sua carteirinha ainda vale e quais são as ervas que curam seus males. Eu quero ler sua cabeça e, antes que eu me esqueça, quero saber que horas são. Por que antes que a gente envelheça, quero saber se você deixa eu morar dentro do seu coração.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Até qualquer dia.


Depois de pedir para o garçom trazer outro copo e descer mais uma ele deu uma olhada bem no fundo daquela imensidão que eram os olhos dela e suspirou. Ei, você é a mulher da minha vida, disse sem remorso ou embargo qualquer em sua voz. E ela, aquela moça que trazia no sorriso os delírios mais bonitos, deu uma mordiscada no lábio inferior como se aquilo que ela não entendia fosse, ao mesmo tempo, a explicação de tudo. Tudo bem, respondeu sem parecer que sim ou que não.

E ela foi pra casa guardando aquele segredo como um passarinho frágil aninhado entre suas mãos e seu peito. Tinha medo que naquela altura da noite alguém viesse lhe roubar aquele presente precioso que acabara de ganhar há alguns instantes naquela mesa de bar. E a rua parecia mais estreita. Ou seria seu coração que passou a ficar mais apertado? Deu vontade de voltar, afinal de contas, ela também tinha tanto a dizer; pô, seu bobo, você não deveria sair por aí ofertando um poema às duas e meia da manhã. Naquela madrugada ela vestiu seu melhor sorriso, deu boa noite pro porteiro e subiu.


No táxi tocava a canção mais brega que ele já tinha ouvido. E ele se lembrava daquele cabelo loiro que mais parecia uma cachoeira de sonhos caindo como moldura pelos seus ombros. Era a sua noite mais incrível, aquela que ele iria contar para os netos dos netos e pra quem mais quisesse ouvir. E que tinha acabado com um abraço apertado e a certeza de que ainda iriam se ver. Então não acabou, pensou ele enquanto o taxista já parava em frente ao seu portão. Ao entrar em casa, ele olhou para o céu e agradeceu. Obrigado, Deus.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Sobre o gosto de estar junto.

Eu gosto de cada pouco do seu corpo todo. E me sinto meio canalha quando te imagino como uma jujuba; a áurea multicolorida e, quer saber, muito gostosa também. Eu gosto de você comendo coxinha, de você lambendo os dedos, de você pedindo outra caipirinha de saquê. Eu gosto de tudo que imagino quando a imaginação vai até você.

Eu gosto dos seus olhos distraídos, dos seus braços e abraços compridos e da marquinha de biquíni. De assistir você como um espetáculo da Broadway, toda resplandecente, num monólogo desconexo que eu passaria a vida a aplaudir. Gosto de você com cara de que não gostou. Gosto de cada gosto que sinto quando estou com você.

Eu gosto do seu perfume que eu ainda não descobri direito qual é. De você chamando o garçom. De você rindo aos montes da piada mais sem graça. Gosto de você sem meio termo. Sem medo de parecer ridículo. E que fique bem claro: eu gosto de você apenas pelo fato de gostar de você, mocinha.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Sobre nós e os outros.

Um dia ele vai chegar pra ela e dizer: tá tudo bem. E vai sair atrás de um táxi fingindo procurar um cigarro ou qualquer outra coisa pelos bolsos da calça. Ela vai ficar olhando de longe, ainda sentada naquela mesa de bar, ele sumir entre os carros que passam em sua frente. Sim, eu posso ver tudo isso daqui onde a gente está, na mesa ao lado.

Repara como ele olha pra ela enquanto bebe mais um gole de cerveja, como ele batuca freneticamente o cardápio quando ela se levanta para ir ao banheiro, como ele sorri de cada piada boba que ela conta. É certamente um cara apaixonado por cada detalhe daquela moça. Agora perceba como ela parece olhar para os lados toda vez que ele fala alguma coisa, como ela só balança a cabeça pra dizer que entendeu, como ela insiste em ficar verificando as mensagens no celular. Ela não gosta dele, é fato.

Talvez se conheceram na escola, ele um cara descolado e cheio de amigos que não dava a mínima para aquela mocinha de óculos e franja que sentava na primeira fila. Ela a mocinha de óculos e franja que nutria uma paixonite platônica por aquele cara descolado. Certo dia, na festa de alguém, eles ficaram. E ficaram. E ficaram. Até que hoje, depois de tantos anos, a coisa se inverteu; ele não parece mais tão cool assim e nem ela usa mais tanta maquiagem. É o fim, dá pra ver.

E você? Ainda gosta de mim? Olha, tá vendo aquele outro casal de meia idade sentado à sua esquerda? Eles não param de olhar pra gente. Provavelmente pelo fato de que o assunto deles acabou e eles começaram a sentir um pouquinho de inveja desse nosso papo cheio de risadas, caras e bocas. Talvez por que passaram a propor as mesmas conjecturas pro nosso amor assim como acabamos de fazer. Talvez por que os nossos olhos dão muita bandeira quando se perdem um no outro. Ah, e por falar nisso, eu te amo.

Tá, se você quer mesmo descobrir como eu sei disso tudo eu vou te contar. Eu já fui aquele cara. É verdade, antes de conhecer você eu poderia escrever um livro inteirinho sobre partidas. Se chamaria Tratado Completo da Despedida. Me apaixonei muitas vezes, você sabe, eu já te contei. Agora me parece que não vou mais publicar nada por que isso já não me pertence. Quando estou ao seu lado eu esqueço a hora de ir. Mesmo quando você, entre tequilas e sorrisos, me pede pra ir embora que já está tarde. Ao seu lado é onde eu quero ficar. Não importa até que horas. Não importa até quando. Desde que chegou, eu só quero ficar aqui pra sempre.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Tudo o que quiser agora.


Você precisa ir agora, tem um táxi te esperando lá embaixo. Não quero mais brigar, desculpa, não é omissão da minha parte ou qualquer coisa assim, eu só não estou mais afim de dizer coisas que você, provavelmente, não está interessada em ouvir e eu muito menos com paciência de sentir as palavras que diz entrando por um ouvido e saindo pelo outro. Pegue suas coisas.

Já chamei o elevador e pus entre suas roupas os retratos que tiramos juntos, faça o que quiser com eles. Imagino que talvez você possa aproveitar as molduras para enquadrar um novo amor. A gente não dá mais, sem problemas ou afetações. Mas, se quiser, pode ficar para um último café.

Quer saber? Não vá assim tão depressa, taxistas sempre podem esperar um pouco mais. Senta aqui e vamos conversar. Olha, eu nunca quis te magoar e tenho certeza que essa nunca foi sua intenção também. Pode ficar com a samambaia. E a cafeteira. Calma, pode deixar que eu seguro suas malas enquanto você ainda estiver por aqui.

Nunca fui bom com as palavras e me desculpa se eu não me sair assim tão bem como aqueles mocinhos dos filmes que você assiste, mas você vai fazer uma puta falta aqui pra este apartamento. Pra esse vazio que vai ficar entre o encosto do sofá e eu. Pra mim e pra tudo que ainda sobrou. Uma falta imensa por que tudo em você é completude. E é isso que me irrita. E me faz amar você por tudo.

Fica. Eu menti sobre o táxi. E sobre o elevador. E sobre não querer ver nunca mais essa cara linda me acordando pra dizer que está começando um programa bobo na televisão. Fica por que eu não saberia mais me reconhecer no espelho sem o brilho nos olhos que você me proporciona. Fica por que eu vou mudar. Eu mudo tudo o que você quiser e prometo regar a samambaia de três em três dias. Fica por que eu te amo. Você não precisa ir agora.


quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Aos vinte e sete.


Neste próximo ano eu faço vinte e oito. Quem me conhece sabe, eu sempre tive um misto de medo e vontade de morrer aos vinte e sete. A poesia ainda me consome. Ainda não cumpri nada do que planejei aos dezesseis. Não fiz um filme. Não casei. Não escrevi minhas pequenas notas biográficas e nem fui à Londres conhecer a Abbey Road. O lance é que, olhando daqui, eu fui putamente feliz. Tive amigos que me deram a maior força quando fui encontrar minha primeira namorada. Uma família incrível que incentivou meus sonhos mais insanos. Uma vida cheia de propósitos que, ainda que não completamente cumpridos, foi do caralho.

Pensei em escrever qualquer coisa sobre o final do ano que parecesse fofa para quem estivesse lendo. Pensei até em esmiuçar cada frase do James Joyce pra dizer que estes trezentos e sessenta e cinco dias que passaram tiveram alguma utilidade comum a todos. Mas não. Não por que eu não sei o que se passou na sua vida. Não por que de repente seu cachorro pegou uma virose e você passou uma semana com ele no veterinário. Hoje eu só quero dizer o quanto meu ano foi bom. E ele foi foda.

Há muito tempo que eu vinha tentando por em prática minhas alucinações panfletárias. E eu pus todas elas na roda viva destes dias que se passaram. Lancei minha coleção de camisetas, que foi uma noite linda e quase que não sobrou nenhuma pra mim. Ajudei a organizar uma cavalgada que ficou na história da cultura popular da minha cidade. Tive o privilégio de promover um encontro na internet dos meus amigos escritores com os poetas que admiro desde que eu era criancinha. Juntei uma galera pra pedalar duas vezes a favor da cultura e virei ícone da luta em prol dos artistas que tentam publicar alguma coisa. Por isso tudo eu digo que valeu. E mais: tudo isso ainda é presente em mim.

Este ano eu coloquei meu nome à disposição do meu partido para as eleições de dois mil e dezesseis e, se tudo correr do jeito que está, provavelmente você está lendo um futuro prefeito. Diagramei um jornal. Planejei outro jornal. Me mudei e fiz questão de deixar claro que eu semprei amei o que faço: a arte de colocar num papel as ideias que tive quando achava que o mundo poderia mudar se a gente mudasse. As ideias que ainda acredito.

Este ano eu tomei coragem de me declarar para aquela moça que eu sentia tanta falta há quatro anos. E eu pareci um idiota. Este ano eu bebi demais e falei coisas demais que me fizeram prometer não colocar nada de álcool na boca em dois mil e quinze. O ano que vai chegar e nos trazer tantas outras oportunidades de ser feliz. E de resgatar. Por que aquele menino que sonhou em mudar o mundo está conseguindo. Aos vinte e sete eu renasci.